A professora da UFRN agredida no protesto em Brasília contou detalhes impressionantes daquele dia

No dia 29 de Novembro durante a votação da PEC 241 (55) pelo Senado Federal em Brasília, ocorreu do lado de fora uma grande manifestação de pessoas contrárias ao pacote de medidas.

Nas proximidades do Ministério de Meio Ambiente houve um confronto entre os manifestantes, muitos estudantes, e a tropa de choque montada da polícia.

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Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

A professora Sandra Fernandes Ericksson, que atualmente leciona no Departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, estava na cidade junto com a caravana “Ocupa UnB”, movimento de estudantes que ocupavam a Universidade de Brasília contra a PEC 55, para participar da manifestação.

Por volta do meio dia ela foi almoçar numa praça próxima ao MEC, e ao terminar se dirigiu até o local do protesto sem saber ainda o que aconteceria com ela mais tarde.

“Eu tinha um certeza mórbida de que haveria repressão. Minha motivação era proteger nossos estudantes, e defender a legalidade e a dignidade política de nosso país.”

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Foto da tropa de choque da PM tirada naquele mesmo dia pela professora Sandra

“Cada edifício de Brasilia tinha uma tropa de choque esperando a passagem das pessoas para atacá-las.” Completou.

O Curiozzzo fez uma entrevista exclusiva com Sandra Ericksson, e veja o que ela nos disse:

Há quantos anos a senhora é professora e onde já lecionou?

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Sou professora desde 1994. Lecionei na UFSM (Universidade Federal de Sta. Maria, RS) e UFRN (Universidade Federal do RN), fui professora do ensino médio por dois anos na Paraíba.

Como começou o episódio em que a senhora foi agredida?

Fui até a frente da tropa de choque pedir—implorar—para que não batessem em nossas crianças e jovens que ali estavam, exercendo assim um direito constitucional de lutar pela manutenção de suas escolas.

E o que realmente aconteceu naquele dia?

Levei muito, mas muito spray de pimenta direto na cara. Tanto no episódio inicial do ataque do exército aos manifestantes pacíficos, como em outros momentos da batalha não reportados ainda, quando encontrei outras tropas, depois de sair daquele primeiro local.

Foi tanto spray que meu rosto e minha blusa ficaram muito úmidas de gás. Meus olhos ficaram cegos eimpossíveis de serem abertos por uns 20 min—talvez mais.

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Momento do ataque da cavalaria da polícia

Fui bombardeada com gás lacrimogêneo (ou alguma coisa do tipo) pois, quem sabe o que um exército, com tal sana de ferir, usa contra aqueles que eles consideram como bandidos. Meu corpo ficou como se fosse em chamas—e também meus olhos. Fiquei tonta, minha garganta seca até hoje; e também senti muita náusea no estômago.

Com meus olhos fechados, senti que um deles me puxou, acho que para me bater—me pegou tão fortemente que meus braços ficaram com alguns hematomas. Então me arrastaram violentamente. Minhas calças jeans estilo convencional estavam saindo e implorei—IMPLOREI mesmo—para que não me deixassem nua.

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Me jogaram no chão como se eu fosse um saco de batatas, e quando descobriram que eu era professora de uma universidade federal — estava até numa cadeira de rodas porque meus olhos não abriam — disseram que iam me prestar assistência mas não o fizeram, apenas ficaram por lá até a minha cegueira passar.

Pretenderam chamar o SAMU e os bombeiros, mas vi, quando sai do lugar que havia um carro de bombeiros bem ao lado, só que não me atendeu. Pedi água depois de um tempo, disseram que não tinha. Não fizeram nada e nem tentaram. Acredito que apenas me retiraram do ato para me neutralizar.

A senhora pretende tomar alguma atitude após o fato?

Eu não sei o que pretendo fazer ainda sobre isso.

Algum recado adicional ou observação para militantes como a senhora?

É preciso resgatar a dignidade política e a legalidade constitucional de nosso país! #TEMERJAMAIS

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