Um relato impressionante de como era Natal (RN) em 1872

Você tem ideia de como era Natal a mais de 100 anos atrás? Ou melhor, 145 anos atrás?

O escritor e funcionário público Lindolpho Câmara, que nasceu em Natal em 1863, em seu último livro denominado “Memórias e Devaneios” (publicado em 1938), escreveu sobre a cidade nos primeiros anos da década de 1870 descrevendo fatos curiosos e bem objetivos da época.

Natal naquela época tinha 12 mil habitantes

Foto: TOK de História

Se Natal hoje “é um ovo”, naquela época então… De acordo com o CENSO de 1872, a população total da Província era de cerca de míseros 12 mil habitantes. “Todo mundo se conhecia”.

Mas era uma cidade extremamente pobre 😦

Divulgação

Tudo era bem precário, e o comércio pobre demais. O autor conta que as pessoas que nasciam só poderiam basicamente exercer 3 profissões: a de pescador, roceiro ou soldado de Polícia.

Água encanada? Esgoto? Luz? Nem pensar…

Vista para o porto de Natal no século XX (Foto: TOK de História)

Os raros lampiões que existiam queimavam azeite de mamona, nem querosene existia ainda, e se a noite fosse de lua cheia, nem se acendia.

O 33º Presidente da Província, Henrique Pereira de Lucena, em 1872, lamentava a vida chamando Natal de “vila insignificante e atrasadíssima do interior”, criando até um trocadilho na época: “Cidade? Não-há-tal”.

Nem mendigo havia

A Rua Chile, antes, Rua da Alfândega, e Rua do Commercio, no bairro da Ribeira (Autor não conhecido. Via: TOK de História)

Lindolpho diz ainda que não havia mendigos em Natal, porque ninguém tinha o que dar para eles. Imagina só isso.

A cidade era minúscula

Mapa de Natal nas últimas décadas do século XIX (Foto: TOK de História)

Havia apenas as regiões da Cidade Alta e da Cidade Baixa (ou Ribeira). De prédios somente a casa dos governadores, a Câmara e Cadeia e o Erário, e quase as mesmas igrejas de hoje: a da Matriz, de Santo Antônio, do Rosário e do Bom Jesus.

Supermercado? O que é isso?

Bairro da Ribeira finais do século XIX início século XX. (Foto: TOK de História)

Só existiam dois mercados, e eles eram pra lá de precários: o da Ribeira, que funcionava debaixo de uma velha árvore com muitas folhas chamada Tatajubeira, para onde iam pescadores e pequenos produtores rurais vender seus produtos, e o da Cidade Alta, na Rua Nova, sob frondosas árvores gameleiras.

E nada de quilos ou metros. As medidas e pesos usados na época eram a cuia, a vara e a libra.

Ir às compras dependia de quantos vinténs ou xenxéns você tinha

Moeda de cobre de 10 réias da época. Foto: Franklin Levy @ Leiloeiro Oficial

As moedas eram o xenxém de 10 réis, moedas de cobre de 20 e 40 réis, notas de 1$000 e 2$000, dos quais a unidade era a “pataca”, o equivalente a dezesseis vinténs. Não entendeu nada? Nem eu.

Ah! E na época tudo era muito barato porque não havia inflação.

E o que tinha pra comer?

Praia de Areia Preta no passado. (Foto: Natal de Ontem)

Se aquele período era de muita pobreza de produtos e serviços, a maior riqueza vinha mesmo era da natureza.

As feiras vendiam várias frutas como mangaba, cajus, cajarana, que eram apanhadas nos sítios e matas em redor da cidade. Também se comia uma grande diversidade de peixes e crustáceos – coisa muito abundante na região -, além de doces de frutas e caças animais como jacus, inhambus, cotias e tatus.

Comia-se também buxadas e dobradinhas, mas a “carne verde” era uma coisa bastante coletiva de fim de semana e dias festivos.

E pra beber?

Cachaça Germana do período Colonial. Foto: Água Doce.

Só se sabe na época da “cachaça de Papari”, tradicional cachaça artesanal saída dos alambiques da região. Quem tinha mais vinténs bebia “Genebra de Holanda”, uma espécie de uísque importado que também era remédio para dores no corpo e sarampo.

Pra dar um rolé, que tal uma serenata ou um cantão? Ou quem sabe até uma tertúlia?

Recriação de uma serenata de cortejamento com formação musical de cantores e instrumentistas estudantes da Universidade de Coimbra. Portugal/Coimbra, postal ilustrado, ca. 1914-1915.

As serenatas aconteciam nas noites de lua cheia. O som era produzido com violões, flautas, clarinetes e pistões. Da garganta dos seresteiros saíam letras como: “Linda deidade chega à janela, vem ver a lua como está bela”.

As tertúlias eram festinhas familiares como aniversários, batizados, comemorações em geral.

E os cantões eram reuniões permanentes amigos nas calçadas de certas casas, para bater papo e falar da vida alheia, a famigerada fofoca. Na época – e até ainda hoje – os cantões eram nada mais nada menos que uma roda de conservadores, que, segundo o autor, excluía os mais liberais.

Não havia clubes ou coisas do tipo pela cidade.

De festa, festa mesmo, só o São João e o Natal

Procissão da Festa de Santana em Caicó (RN) no final do século XIX

Essas eram as duas grandes festas do ano. No São João acendiam-se as fogueiras em frente às casa humildes. Assavam milho verde e batatas doce. Na mesa: pratos de canjica e bolos variados.

Moças e rapazes brincavam de tirar a sorte para saberem com quem iriam se casar, além de outras brincadeiras tradicionais do período.

Já no Natal o autor fala que as famílias montavam grandes presépios. À meia-noite, comiam pratos que hoje soam estranhos como: pastéis de carne de porco, chouriço, doces secos, sequilhos e castanhas de caju confeitadas.

E as mulheres? Bem…

Mulheres do século XIX (Foto: Blog Por Dentro da Moda by Marinact)

As mulheres mais novas da época não podiam se quer pôr o pé fora do sapato, cruzar as pernas nem pensar, nem podiam falar alto. Não podiam também comer qualquer “iguaria” na porta ou na janela de casa, nem ao menos olhar para rapazes.

E como falar com o(a) crush?

Telégrafo Ótico da Europa. (Foto: Ciencia y tecnología – Fundación Telefónica)

Por sinais semafóricos lá do telégrafo ótico da Catedral, entendeu? Calma que eu explico. Sinal semafórico um técnica para enviar mensagens visuais à longas distâncias sem tecnologia alguma pra isso. Para isso se usa um Telégrafo Ótico, que é um utensílio projetado para ser visto de longe, tal qual um farol, e que operado por uma ou várias pessoas juntas consegue reproduzir diversos sinais formando uma mensagem.

Se posicionassem várias torres encadeadas podia-se fazer com que o operador de cada torre repetisse a mensagem da anterior, propagando-se assim através de grandes distâncias e, em um tempo muito inferior ao que permitia um mensageiro a cavalo, por exemplo.

O telégrafo da Catedral de Natal, funcionava por meio de bandeiras e cores, e era montado no alto da torre da Matriz, quem o operava eram escoteiros da Associação dos Escoteiros do Alecrim. Podemos dizer que isso era uma mistura de semáforo de trânsito com televisão.

De acordo com o Código Marítimo Internacional são centenas as convenções, mas o de Natal só empregava três bandeiras e os sinais indicavam coisas como a saída e entrada dos navios, o tipo, a direção, a nacionalidade, o nome da embarcação e da companhia de navegação, etc.

O que é carro?

A atual praça José da Penha, em frente à Igreja do Bom Jesus das Dores, data, provavelmente do século XVIII. A igreja denominou o logradouro até 1902. (Foto: Natal de Ontem)

A 145 anos atrás Natal não tinha se quer um só veículo. Era tudo feito a pé ou em animais.

Gostou? Aconselho ver como eram 5 locais de Natal (RN) no passado

As informações e imagens que compõem este post foram resgatadas por Rostand Medeiros e publicadas no blog TOK de História. A fonte é um trabalho de pesquisa publicado no jornal “A República” (edição de 14 de maio de 1972), intitulado “Natal há 100 anos atrás”, onde o autor é Veríssimo de Melo, que por sua vez registrou um texto escrito originalmente por João Lindolpho Câmara no livro “Memórias e devaneios”, publicado em 1938.

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