Conheça o criador da estátua de Iemanjá em Natal

Ele também foi escultor do “beijo” de um casal de namorados, no Parque das Dunas.

Muita gente já se perguntou: quem será que esculpiu a famosa estátua de Iemanjá na Praia do Meio em Natal?

O nome do artista, desconhecido de muitos porém muito talentoso, é Etewaldo Cruz Santiago. Este homem aqui, e a história dele é de emocionar:

Etewaldo ainda era criança em Assú (213km de Natal), onde nasceu, quando ajudava sua vó a fazer alfenim, moldando nas pequenas mãos miniaturas de patos.  “Esse menino tem jeito pra artista. Faça mais”, dizia-lhe ela.

Como quase todas as histórias antigas do RN estão ligadas à Segunda Guerra Mundial, em que Natal foi base de apoio aos Estados Unidos, a de Etewaldo não foi diferente. Ainda pequeno, partiu com os pais para Natal, em busca de melhores oportunidades. O pai dele trabalhava na Base Aérea abrindo estradas para os militares.

Até então, tudo que ele sabia sobre artesanato era a fabricação dos próprios brinquedos usando peças de madeira. O menino cresceu, virou adolescente, e aí chegou a necessidade de ajudar em casa. Ele então conseguiu trabalho também na Base Militar, onde ajudava os mestres de obras na confecção de plantas baixas, recebendo muitos elogios pelo talento com os desenhos.

Base aérea americana em solo potiguar Parnamirim Field

Entre vários trabalhos por onde passou, ele conheceu Dona Eliete, uma viúva que conheceu na igreja evangélica, com quem casou, teve 9 filhos e conviveu até o fim da vida.

Etewaldo então mudou-se para Ceará-Mirim, uma cidade que ele sempre quis conhecer. Por lá começou a caçar e a trabalhar restaurando com perfeição fotografias 3×4. “Ele colocava jóias e dentes de ouro nas fotos quando as pessoas pediam. Era um trabalho incrível, ficava perfeito”, diz Edvaldo Santiago, o segundo dos 9 filhos dele.

Um dia, seu cunhado Januário lhes disse que trabalhar com esculturas em argila era melhor negócio. A atividade ainda era pouco conhecida na região, e isso terminou o convencendo de que tinha talento pra coisa.

Então Etewaldo arriscou-se criando algumas peças, fez as malas e foi junto com Januário tentar vendê-las em São Paulo, cidade mais desenvolvida e que consumia arte de maneira mais ávida do que Natal. O resultado dessa aventura não podia ter sido melhor, ele foi um sucesso na Praça da República.

Escultura de um pescador de autoria de Etewaldo que está sendo colocada à leilão no site http://www.fibragaleria.com

Depois de esgotar suas estatuetas na “terra da garoa” ele voltou feliz para casa, certo de que dali sairia mais uma fonte de sustento. As viagens se repetiram e o artista de Assú-RN passou a ficar conhecido fora do estado, mas infelizmente não muito dentro dele.

Talvez por isso ele continuou trabalhando com fotografias em terras potiguares, mas desta vez virara fotógrafo. Sempre que algum crime acontecia, o artista era chamado para registrá-lo com exclusividade. Depois vendia suas fotos para jornais locais.

Um dia, um jornalista chamado Alexis Gurgel foi à casa de Etewaldo, que era cheia de seus trabalhos com argila, para procurar uma foto. Foi quando se deparou com algumas de suas esculturas e ficou espantado com seu talento. Agora o foco da visita não era mais a foto, mas entrevistar o artista daquelas obras.

Alexis fez uma matéria que divulgou para todo o RN. Depois disso a vida de Etewaldo não foi mais a mesma. Choveram novas entrevistas, vieram novos convites, surgiram viagens, encomendas, exposições, e ele se tornou ícone da cultura em Ceará-Mirim.

Etewaldo deixou obras de arte em praças e até estátua na entrada da cidade. Mas foi em 1970 que uma de suas esculturas mais famosas foi criada: a “Estátua do Beijo” no Bosque dos Namorados (hoje Parque das Dunas):

“A intenção, em um primeiro momento, era ele produzir um nu artístico nessa obra. Mas ele foi alertado que poderia sofrer represálias da Ditadura Militar, aí ficou aquele beijo mais inocente”, explica seu filho Edvaldo.

Depois veio a famosa estátua de Iemanjá, símbolo famoso que fica na Praia do Meio, em Natal. Com certeza você já esteve ao lado da estátua e não sabia quem a tinha criado. Agora você já sabe 😉

Mestre Etewaldo, como é hoje conhecido, morreu em 2006 aos 67 anos de idade de complicações no fígado. Seu filho Edvaldo hoje segue os mesmos passos do pai, e de suas esculturas a mais vendida é a estátua de mulher rendeira.

Fonte: Revista Bzzz – Ano 4 / nº 43 / Janeiro de 2017 / páginas 16 a 21. Fotos: Rafael Barbosa e Arquivo.

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