A chocante história da cidade do RN que desapareceu e reapareceu em outro lugar

Quantas cidades você já ouviu falar que se mudaram inteiras para outro lugar?

E o que você faria se a cidade inteira onde mora se mudasse de repente?

Foi o que aconteceu com São Rafael, cidade do Oeste Potiguar, no ano de 1980. Naquela época seu município tinha em torno de 8 mil habitantes, mas apenas 3 mil viviam na cidade. A população vivia essencialmente da pesca e da agricultura, e bebia água direto do rio Piranhas-Açu. Não havia se quer água encanada, rede de esgoto ou hospitais. Todo mundo se conhecia, num território resumido a pouco mais de 460m², e apesar de uma vida em que lhes faltava o básico, parecia não faltar felicidade.

Igreja matriz de São Rafel na época (youtube)

Até que um dia o governo, através do Departamento Nacional de Obras – conhecido por DNOCS, decidiu botar em prática um antigo projeto chamado de “Baixo-Açu”. O projeto tinha um objetivo simples e direto: construir um enorme represa para armazenar água para várias regiões, mas para isso, havia um problema não tão simples: a própria cidade, que ficava às margens do rio, mas estava bem no meio do local da obra. Este projeto mais tarde se tornaria o maior inimigo de todos os moradores de São Rafael, marcando eles provavelmente para o resto de suas vidas.

Para se construir a barragem a cidade inteira de São Rafael precisava deixar de existir, ou melhor, mudar-se para outro lugar, onde seria criada uma nova cidade, mas o governo parecia ter tudo sob controle. O departamento prometia uma São Rafael novinha em folha, projetada nos moldes de um conjunto habitacional, com casas de 2, 3 e 4 quartos, e assegurava que quem tinha comércio receberia pontos comerciais no mesmo estilo.

Fonte: Bruno Andrade (Imagens Aéreas)

Antes de iniciar as obras também seria feito um levantamento do pessoal que aceitaria uma casa na “nova cidade” que seria construída, e aqueles que não aceitavam isso recebiam indenizações. Mas a população já era avisada de que não seria um recomeço nada fácil, já que o povo teria que encontrar novas formas de renda por causa da extinção instantânea das suas. Diante da tristeza e do medo que se abateu sobre grande parte dos moradores só havia uma exigência: morar perto dos mesmos vizinhos de antes.

Ainda assim, mesmo vivendo de forma humilde, e com promessas de vida melhor pelo projeto, os moradores da cidade contam que na época a maioria deles eram contra a mudança: “O governo vinha conversar com a gente para induzir a gente a acreditar que esta obra seria excelente para a cidade”, conta um deles. Mas logo o silêncio abrupto de responsáveis técnicos e de autoridades do próprio governo pareceu anunciar que a vida nova seria marcada pela saudade.

Um vídeo no Youtube gravado numa espécie de “assembléia” com a comunidade na época, revela que a maioria dos moradores da cidade não foram consultados se concordavam ou não com a construção da represa, e ainda que não foram informados de forma clara para onde se mudariam por causa da obra. No registro dá pra ver como era a cidade anteriormente e sentir a tristeza dos depoimentos dos moradores prestes a deixarem a cidade. Veja o vídeo:

Foi então que dentro de poucos meses após o projeto ser fechado, a cidade começou a ser inundada. A água foi chegando pouco a pouco e o desespero tomou conta de muita gente. Em vídeos na internet, moradores contam que muitos deles só deixaram suas casas quando a água literalmente lhes bateu nos pés. Há relatos de gente que faleceu às vésperas de ir para a nova cidade ou logo depois de ter chegado.

“Adeus terra querida que nunca mais vou pisar. Vai ficar adormecida vai ficar adormecida no fundo daquele mar. Quando vejo tanta dá vontade de chorar. Basta de tanta ingratidão com essa gente sofrida. Que tanto trabalhou hoje tem suas terras perdidas.” cantarola uma lavadeira da cidade.

Anos depois o artista, cantor, músico e compositor rafaelense, Arleno Farias compôs um poema e musicou, chamando a cidade de “Atlântida Potiguar”. A capa do seu CD foi a foto da antiga torre da igreja católica no meio das águas da barragem.

Famosa imagem da torre da igreja emergindo na água que inundou a cidade. Foto: Rodrigo Cortez (Blog Sociedade Alternativa São Rafael RN)

A cidade resurge em época de seca e revela ruínas

E quando isso acontece a população revive lembranças do passado. Como mostrou essa reportagem de Vilsemar Alves e Joaquim Marcelino para a TV Ponta Negra em 2016:

Mas e a represa?

A Armando Ribeiro Gonçalves é hoje o maior reservatório de água do Rio Grande do Norte, com capacidade de 2,4 bilhões de metros cúbicos, mas em virtude da exploração da mina de ferro Jucurutu, existe a possibilidade de haver contaminação de suas águas por uma empresa concessionária, localizada na Serra do Bonito ou Cabeço do Bonito. Isso porque um moinho da empresa encontra-se na base da Serra, com grande possibilidade dos resíduos serem lançados na Barragem.

Há também denúncia das Prefeituras das cidades de Janduís e Assu no sentido de que a mesma barragem esteja contaminada com bactérias tornando a água imprópria para o consumo humano.

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