Esta mulher foi uma das pioneiras do voto no RN mas saiu das rodas da elite e passou a vagar pelas ruas

Em Caicó-RN, no final da década de 50, morava esta mulher:

Acervo particular da família

O nome dela é Júlia Augusta de Medeiros, uma pioneira no jornalismo, na educação e no feminismo do Rio Grande do Norte. O último atributo é porque ela era uma mulher de ideias avançadas para o seu tempo, e não bastasse isso ela também se destacou na política do RN, tendo exercido dois mandatos como vereadora.

Com tanta participação destaque na sociedade potiguar, rapidamente passou a frequentar as rodas de intelectuais da elite, se tornando amiga de personalidades como o escritor e folclorista Câmara Cascudo a e poetisa Palmira Wanderley.

“O vestir-se bem – desejo de distinção social na Caicó de 1939”. Autor da foto desconhecido.

À exceção entre as meninas de seu tempo, Júlia Medeiros teve a sorte de pertencer a uma família rica e de visão pedagógica diferente da maioria das famílias do início do século 20. Seu pai era Antônio Cesino Medeiros, um proprietário de grandes terras em Caicó, sendo a maior e mais próspera delas a fazenda Umari, onde Júlia nasceu no dia 28 de Agosto de 1896.

Lá ela rapidamente teve acesso à educação, aprendeu as primeiras palavras, e depois, aos 13 anos, foi mandada para estudar em Natal, numa longa viagem de oito dias no lombo de um burro. Vale lembrar aqui que isso já faz mais de 100 anos.

Então, a futura feminista hospeda-se no bairro da Ribeira, começa a estudar em bons colégios da capital e forma-se no ano de 1925. Um ano depois, volta a morar em Caicó, passando a lecionar na mais conceituada instituição de ensino do município. Nessa mesma época ela também já escrevia para um pequeno jornal da cidade, que mais tarde se tornou um marco no jornalismo feminino no Rio Grande do Norte.

Júlia Medeiros votando em Caicó/RN. Fotografia: Acervo Particular

Mas Júlia também já participava ativamente da vida pública de Caicó, envolvida com a elite política da cidade. Foi quando fez laços de amizade até com Juvenal Lamartine, senador e governador do estado naquela década.

Considerada exímia oradora, Júlia se notabiliza por questionar, em seus discursos de improviso, a condição da mulher da década de 20 – cuja vida resumia-se aos afazeres domésticos. Em suas falas em público, exigia, principalmente, o direito à educação e à cidadania, e choca a sociedade caicoense com todo esse comportamento avançado.

Sentindo-se à vontade mesmo assim, ela passa a usar roupas na cor condenável pela sociedade a não ser em ocasião de luto: preta,vez por outra combinadas com calças jeans. Ao comprar com o dinheiro do próprio emprego um carro Ford 29 (o baratinha) e desfilar pelas ruas da pacata cidade, ela praticamente promove um escândalo, e choca mais uma vez a sociedade ao recusar um pedido de casamento e ir morar sozinha, na casa de número 157 da rua Seridó.

Mas aí algo grave aconteceu na vida dessa destemida mulher

Fotos de Júlia Medeiros do acervo da família

Ainda nos anos 20, Júlia começou a apresentar lapsos de memória e a perder a sanidade mental. Seu estado de saúde foi se agravando rapidamente, o que a fez perder pouco a pouco tanto o controle de suas atividades intelectuais, como da financeira, e isso, infelizmente, também significava se distanciar de muita gente.

A mulher forte e “pra frentona” aos poucos se tornava frágil e simples:

“Júlia veio para Natal já doente, aposentada, deprimida. Começou a perambular pelas ruas, levando sempre junto ao corpo um monte de penduricalhos. A cada dia seu estado mental ia se agravando. Ela já não cuidava da higiene, catava lixo e andava com roupas em trapos. Ninguém acreditava quando dizia ter sido uma pessoa importante”, afirma Manoel Pereira da Rocha Neto, jornalista natalense que conseguiu unir os dois capítulos extremos dessa história e contá-la na íntegra pela primeira vez.

O jornalista conta ainda que certa vez ela ficou parada observando por bastante tempo a vitrine de uma loja de roupas, e ao tentar entrar foi confundida com uma ladra e quase foi presa. “Penso que ela estava recordando sua época de moça. As moças da alta sociedade caicoense só vestiam as roupas feitas por Maria do Vale Monteiro, costureira mais famosa da cidade. Mas antes Júlia tinha que vestir e aprovar. Por causa do corpo bem feito, ela era uma espécie de modelo no município”.  Já com a doença avançada, Júlia parcelou em 10x uma máquina de costura para fazer os próprios vestidos, como forma de relembrar a época áurea.

Centro de Caicó/RN, década de 20 do século XX. Foto: Manoel Ezelino

A aposentada Lúcia Bruno Damasceno mora na rua da Misericórdia, onde Rocas-Quintas viveu de 1960 até 1972, e confirma a informação do jornalista: “Ela vivia na rua catando coisas e entulhava tudo num porão em casa. Costumava dizer que foi uma mulher de destaque em Caicó, mas ninguém acreditava”.

Na década de 60 Júlia havia se tornado uma senhora suja e maltrapilha, e virou “figura folclórica” em Natal por fazer todo santo-dia, a pé, o mesmo itinerário da linha de ônibus Rocas-Quintas. Foi assim que ganhou o apelido “Rocas-Quintas” e era provocada diariamente por garotos nas ruas que a chamavam em coro por este nome. Ela, com o dedo em riste, revidava: “Me respeitem, que eu tive vida importante”! retomando as passadas ligeiras com breves paradas para catar lixo e restos de comida nas lixeiras.

A vida vai seguindo assim, precária e triste. A importante mulher e pioneira em tantos assuntos virou “a mendiga Rocas-Quintas”, louca, insultada, pobre, esquecida. Na madrugada do dia 29 de agosto de 1972, 1 dia após seu aniversário, Júlia morre aos 76 anos, sozinha e excluída da sociedade. O laudo da sua morte no 4º Ofício de Notas deixa em dúvida se Júlia cometeu suicídio, apesar de todos os indícios no local na época dizerem isso.

A casa em que ela morou em Caicó foi demolida e no lugar foi construída uma boutique. A casa em que ela viveu seus últimos dias em Natal, na rua da Misericórdia, Cidade Alta, foi demolida para a construção de uma praça. Seu túmulo e seus restos mortais, no Cemitério Parque, em Caicó, foram violados e extraviados.

Vi no: Potiguarte

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