Este foi o último militar americano em Natal e sua morte é um mistério

Como já falamos várias vezes aqui, durante e Segunda Guerra Mundial Natal (RN) foi um imenso ponto de apoio (“Trampolim da Vitória”) para milhares de militares norte-americanos que utilizavam a cidade estrategicamente para seguir em direção ao continente Africano e Europeu.

A cidade de Natal recebeu um contingente de 10.000 soldados norte-americanos. Este fato mudou radicalmente a até então pequena capital, que à época possuía 55000 habitantes. Mais do que uma importante participação durante o conflito armado mundial, a influência cultural dos americanos marcaram para a sempre a cidade.

Americanos na época da Segunda Guerra Mundial vestidos com traje de gala (os “galados”) na rua Dr Barata em Natal

Até o final da Segunda Guerra centenas de cemitérios temporários haviam sido criados pelas forças armadas dos Estados Unidos em campos de batalha ao redor do mundo. Vários militares feridos ou doentes, tanto nas frentes de batalha em terra, no céu ou no mar, como por doenças, eram trazidos para a cidade, e os que morriam eram enterrados em um desses cemitérios, o do Alecrim em Natal (RN).

Pra quem não sabe os EUA tem uma agência chamada “American Battle Monuments Commission” (ABMC) destinada exclusivamente para tratar do repouso eterno de militares mortos em combate, e, durante a Guerra, foi organizada uma grande operação para trazer mais de 233 mil americanos mortos pelo mundo de volta aos Estados Unidos.

Era cena comum que militares chegassem a Natal feridos em aviões especialmente adaptados, como o mostrado na foto. Muitos não resistiam a gravidade de seus ferimentos e foram enterrados no Cemitério do Alecrim. Foto: TOK de História

Segundo consta no livro “História da Base Aérea de Natal”, de Fernando Hippólyto da Costa, no dia 10 de abril de 1947, quase dois anos após o fim do conflito, um navio da Marinha Americana (US NAVY) aportou em Natal, com uma equipe de especialistas da ABMC destinados a trabalharem no traslado dos corpos de americanos sepultados na cidade.

Mas um dos corpos não voltou para os Estados Unidos, o do sargento Thomas Nonnez Browing

O militar Tom Browning. Foto: capa de Alexandre Oliveira no livro “Natal, USA” de Lenine Pinto.

O sargento Thomas Browing era um jovem tranquilo de apenas 22 anos, nascido no Domingo de 25 de junho de 1922 em Cincinnati, no estado de Ohio.

Ele estava em Natal lotado junto ao 22 AAF Weather Sq., também conhecido como “22 Expeditionary Weather Squadron”, uma unidade de meteorologia que estava subordinada diretamente ao “Air Transport Command – ATC”, o setor da Força Aérea dos Estados Unidos, destinado a transportar por aviões tudo que fosse necessário para abastecer as tropas americanas em combate pelo mundo.

Conta-se que o sargento Browning era calmo, sociável e tinha uma noiva na capital potiguar e que estava prestes a se casar, mas não há registros que comprovem isso.

Ilustração que supostamente mostra americanos da US Navy em Natal. Foto: TOK de História

Segundo o jornalista Edilson Cid Varela, que na época da guerra era correspondente da Agência Meridional de notícias em Natal, Browning, ou simplesmente “Tom”, adorava o Brasil e desejava permanecer no país após o fim da guerra. Para o jornalista o jovem americano tinha uma “alma de praia”, porque adorava as águas quentes do litoral potiguar.

O forasteiro estava extremamente empenhado em aprender português e era o próprio Edilson Varela quem lhe ensinava. Tom fazia questão de aprender nosso idioma, mesmo depois de doze horas de trabalho em Parnamirim Field. Talvez estas aulas servissem para ele se comunicar com alguém da nossa região com maior facilidade e intimidade.

Segundo apuração do historiador Rostand Medeiros, a morte do sargento Browning teria sido provocada por uma doença misteriosa e isso acabou criando diferentes versões sobre o falecimento do militar.

Para alguns teria sido alguma moléstia sexual, contraída em um dos vários cabarés que atendiam os americanos em Natal e região.

Há relatos de que a família do jovem sargento era evangélica de um segmento muito conservador e que, devido às causas de sua morte, ela teria ficado muito envergonhada, decidindo deixar o corpo do seu ente querido para trás, até para evitar uma “vergonha” perante os membros de sua comunidade religiosa. Mas o historiador ressalta que não há confirmação documental sobre esta morte, e acredita que esta versão seja “pura bobagem”.

Em nenhum momento na reportagem de Edilson, existe algum comentário sobre a noiva natalense falada anteriormente.

Um dia o militar americano deixou com o jornalista macaibense um livro que em português, que mandou vir do Rio de Janeiro para ajudar em suas aulas. Depois seguiu para seu turno de serviço em Parnamirim Field e simplesmente desapareceu.

Edilson conta que seis dias depois foi à base e passou a procurar o amigo nas mais de 900 alojamentos para oficiais e soldados que existiam na área militar em 1943. Quando finalmente localizou o alojamento do sargento, houve o seguinte diálogo com um militar ali presente:

O Tom Browning está?

E lhe responderam:

“Esteve até ontem. Morreu.”

Sem maiores detalhes!

Thomas morreu coincidentemente em outro domingo, 18 de julho de 1943.

O livro “Brazil and the United States during World War II and Its Aftermath: Negotiating Alliance and Balancing Giants” de Frank D. McCann e publicado pela editora Springer, conta que Tom Browning “morreu repentinamente de meningite espinhal infecciosa”.

Lápide do sargento americano Thomas Nonnez Browning. Foto: Rostand Medeiros via TOK de História.

Grande parte dos cemitérios temporários foi desativada durante a operação de traslado dos corpos para os Estados Unidos, que se estendeu de 1945 a 1951.

Com informações de TOK de História e “Diário de Natal” edição de quarta-feira, 31 de maio de 1945. Foto do rosto do militar Tom Browning capa de Alexandre Oliveira no livro “Natal, USA” de Lenine Pinto.

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Henrique Araujo

O criador do Curiozzzo é Bacharel em Sistemas de Informação, viciado em internet desde muito cedo, e encontrou na criação de conteúdo uma nova paixão. Criou o blog em 2014 para levar o Rio Grande do Norte (onde vive desde criança) para o mundo de uma forma criativa e diferenciada. Siga-o: instagram.com/henrique.e.araujo

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